Passarinha de Realejo

Texto de artista não por pretensão, mas por precisão. Precisão de ser o que é, de ser artista e fazer isso 24 horas por dia, pois não conseguimos olhar para uma lua muito cheia e não imaginar que é uma pintura. Texto de artista porque a gente se expressa pelos poros e escreve para que alguém leia mesmo sem querer mostrar. Até que um dia mostra, para a vida passar do ordinário para o extraordinário. Foi o que eu fiz!

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Local: Rio de Janeiro, R.J., Brazil

Alguém que fala demais, escreve demais e chora demais.

sábado, dezembro 03, 2005

QUEM VÊ NINGUÉM

Se viajo em algum lugar é uma noite, não é medida, é escura e clara, movimentos em redor e com. Não leio mais, pois parou, acabou, a história não tem fim e ao menos se explica? E SE...
Se socar, flutuar, espanar, açoitar, pressionar, pontuar, torcer, deslizar formam um icosaedro de múltiplas cenas, nunca em lugar algum pode-se prever. Se. A cena acaba e alguém continua. Ele vem lindo, como quem chega, como um menino grande que sobe e desce incessantemente, pára. Se. Há um conteúdo lá embaixo mas ninguém espera, não tem certeza. Se acabou. É como. Se um viajante numa noite de inverno fosse ninguém menos que si próprio, que ninguém, que todos ao mesmo tempo agora, ou seja, se todo mundo fosse ninguém. Ele vem de novo, lindo como um menino grande, não é essa a cena. Virou pombo daqueles que de noite se enfileiram no alto do prédio antigo para dormirem de pé. O peito do pé chacoalha, treme, chama, ninguém diz que o pé de laranja-lima dá limão. Ninguém vê. A montanha esconde ou a história acaba. Ou a cena muda. Ou o diretor corta sem aviso. Ou ninguém chama. Se. Não tiver sim lá embaixo não tem nada, a torneira não pinga e sua água não volta, ninguém sabe de tudo e mais. Finge que conhece o mudo. Se o fio da borracha corta, existe e queima é sonho. Se não tem mais ninguém. Começou. Agora tudo de novo. Se aquele viajante volta, acende, deita, acorda, a história termina e ele continua.

Preenchendo vazios com buracos

Ela tentava preencher buracos. Até os que não via e não conseguia. Não sabia com o que preencher até que chovia.
Não entendia para quê um buraco retangular de concreto cinza com um jardim no fundo.
A menina não entende nada de espaços vazios, pois qual seria a necessidade de uma escada cercada por grades que serve de passagem, já que é uma escada, mas que não se acham as chaves?
Preencher buracos era difícil.
Ela tentava, mas não conseguia. Fazia chover em um quarto onde a água escorre. Não enche, não preenche. Não preenche de nada. Nem de ar, pois prendia a respiração.
Não consegue entrar num buraco de concreto para regar o jardim que existe lá no fundo.
Eu disse a ela que existe uma passagem para esse jardim que é a escada cercada por grades onde ninguém entra, até que se ache a chave, desça a escada e preencha a gaiola com presença.
Mas, afinal, estar em um lugar é preenchê-lo?
Não sabia.
Preencher com água, com ar, com presença, com flores, com chuvas, ou até com buracos.
Será que há algum problema em preencher vazios com buracos?
Desde que ela consiga uma escada para subir de volta, acho que não.
Ela, a menina, pode também chover anos buracos ao invés de usar a escada para subir de volta.