Passarinha de Realejo

Texto de artista não por pretensão, mas por precisão. Precisão de ser o que é, de ser artista e fazer isso 24 horas por dia, pois não conseguimos olhar para uma lua muito cheia e não imaginar que é uma pintura. Texto de artista porque a gente se expressa pelos poros e escreve para que alguém leia mesmo sem querer mostrar. Até que um dia mostra, para a vida passar do ordinário para o extraordinário. Foi o que eu fiz!

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Local: Rio de Janeiro, R.J., Brazil

Alguém que fala demais, escreve demais e chora demais.

sábado, dezembro 03, 2005

Preenchendo vazios com buracos

Ela tentava preencher buracos. Até os que não via e não conseguia. Não sabia com o que preencher até que chovia.
Não entendia para quê um buraco retangular de concreto cinza com um jardim no fundo.
A menina não entende nada de espaços vazios, pois qual seria a necessidade de uma escada cercada por grades que serve de passagem, já que é uma escada, mas que não se acham as chaves?
Preencher buracos era difícil.
Ela tentava, mas não conseguia. Fazia chover em um quarto onde a água escorre. Não enche, não preenche. Não preenche de nada. Nem de ar, pois prendia a respiração.
Não consegue entrar num buraco de concreto para regar o jardim que existe lá no fundo.
Eu disse a ela que existe uma passagem para esse jardim que é a escada cercada por grades onde ninguém entra, até que se ache a chave, desça a escada e preencha a gaiola com presença.
Mas, afinal, estar em um lugar é preenchê-lo?
Não sabia.
Preencher com água, com ar, com presença, com flores, com chuvas, ou até com buracos.
Será que há algum problema em preencher vazios com buracos?
Desde que ela consiga uma escada para subir de volta, acho que não.
Ela, a menina, pode também chover anos buracos ao invés de usar a escada para subir de volta.