Passarinha de Realejo

Texto de artista não por pretensão, mas por precisão. Precisão de ser o que é, de ser artista e fazer isso 24 horas por dia, pois não conseguimos olhar para uma lua muito cheia e não imaginar que é uma pintura. Texto de artista porque a gente se expressa pelos poros e escreve para que alguém leia mesmo sem querer mostrar. Até que um dia mostra, para a vida passar do ordinário para o extraordinário. Foi o que eu fiz!

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Local: Rio de Janeiro, R.J., Brazil

Alguém que fala demais, escreve demais e chora demais.

sexta-feira, julho 22, 2005

O QUE EU SINTO NÃO ME PERTENCE

O que eu sinto não me pertence.
Existe um hiato entre minha mente e meu coração.
Eles não se entendem.
Um sempre procura o lado que o outro não está. E vai.
O que eu penso meu coração não obedece.
Decido e ele não ouve, se derrete inteiro.
Me resta enlouquecer, escrever, pensar e jurar que isso nunca mais vai acontecer.
Junto aquele coração derretido, que se esparrama cada vez mais, foge do meu controle, me entrega, me estraga.
A respiração vem ofegante.
A lágrima não vem.
Eu peço.
Mando para o cérebro e ele nega, comosempre.
Ele não retorna nunca, e o coração continua lá, esparramado.
Desculpa, esse é meu cérebro, que esqueceu de avisar para o coração que aqui não é o lugar dele.
Desculpa, esse é meu coração, que não sabe que aqui não é o lugar dele.
Desculpa, se essa é minha vida, se essa é minha arte, é que essa sou eu.
E desculpa se eu não sei se aqui é o meu lugar.

terça-feira, julho 19, 2005

UM TEMPO QUE NÃO PAROU, OU QUE NUNCA EXISTIU

Às vezes tenho vontade de voltar no tempo. Voltar para aquela noite de carnaval quando nos beijamos pela primeira vez. Foi sem fala. Só nos olhamos, sorrimos e já entendemos. O tempo parou por um segundo ou por uma eternidade. Parecia só haver nós dois, mesmo tendo centenas de foliões à nossa volta. Outras noites tão boas quanto à primeira se passaram, mas aquela continha toda nossa possibilidade de vida juntos. O tempo diluiu essa possibilidade.
Tempo, tempo que não para, que só passa, que não volta e quando volta é saudade. Saudade não me falta, tenho um pouco para te dar. Sei que você não quer e nem sente.
O nó da minha garganta parece que explode quando lembro de você me olhando: olhava querendo ver e via dizendo que meu olhar era vazio, que não dizia nada, mas não dizendo eu te falo que seu sorriso é de menino e você achando que é homem crescido. Homem cheio de dúvidas, homem artista, homem lindo, homem com uma pinta no rosto. Homem que sorri, que fuma cigarro, que escreve, que pinta, que olha como se não tivesse fim.
Homem livre no mundo, perdido, achado, jogado e longe de mim.

quarta-feira, julho 13, 2005

DOMINGO NO PARQUE

Na verdade não era um parque, era um sem nome de coisas que não fazem sentido algum, coisas que não têm as mesmas referências e portanto não se cruzam. Como uma avó que veio de longe e que nunca foi vovó, só visita, uma mulher que possui as atenções de um pai e que não é minha mãe, um e-mail de um homem que morro de saudades, fotos sobre minha vida, mas que tornam-se meu trabalho, peça de teatro, noite fria e é claro, lágrimas. O que estas coisas têm em comum? Nada, (ou tudo que não vejo).
Na volta para casa viria a descobrir ser o tempo a unir todas essas coisas no meu parque. Só que antes da desesperadora descoberta, assisti um espetáculo que foi sonífero inicialmente, intermediariamente emocionante e, finalmente, lacrimosamente revelador. Revelador pois contribuiu com o processo de descoberta do tempo, (primo-irmão do vento).
Na volta para casa viria a descobrir ser o tempo a unir todas essas coisas no meu parque, lendo o texto do Aderbal, contido no programa de mão de seu espetáculo. Uma das coisas que ele diz é que o teatro tem cheiro, chorei. O tempo, senhor das coisas, passa muito e passa rápido, me dá medo, me dá nó, me dá choro. É ele que não me deixa, é ele que me segue e foi ele quem juntou aquelas coisas que escrevi lá no primeiro parágrafo, ( porque os primeiros sempre serão os últimos). Aquelas coisas sem referências próprias, o tempo juntou em um parque só.
Se eu não vejo mais o homem do e-mail, é por culpa do tempo, que não parou quando devia. Se minha avó nunca foi vó, é por ocasião do tempo, que não nos apresentou antes. Se essa mulher tem o meu pai, é porque o tempo agora é outro. Se chove todas as noites no meu quarto é porque o tempo tá sempre nublado.
Mais uma vez o tempo. Tempo que ri de mim, que me olha, me atravessa, me esmaga e se contorce de dor. Tempo que passa, muda de cor, perde brilho, ganha temperatura, mas não volta ao que era. Tempo que seca minhas lágrimas para as produzir de novo.
Chove tempo, chove em mim!

sexta-feira, julho 08, 2005

Ficção real

Queria ser uma Diva, uma grande mulher. Alguém para quem se olhe e diga: é ela. No entanto, olhem o que fui ser? Irmã. Irmã da minha irmã, que é uma criança. O meu filme mudou de roteiro quando um personagem estranho entrou nele sem saber explicar de onde veio porque não sabia falar. A criança do filme não era mais eu, nem minha irmã e eu não virei uma Diva, nem minha irmã. Nem sei se ela queria ser uma. Eu quero. Eu quando crescer quero ser uma mulher para quem se olhe e se diga: é ela!