Passarinha de Realejo

Texto de artista não por pretensão, mas por precisão. Precisão de ser o que é, de ser artista e fazer isso 24 horas por dia, pois não conseguimos olhar para uma lua muito cheia e não imaginar que é uma pintura. Texto de artista porque a gente se expressa pelos poros e escreve para que alguém leia mesmo sem querer mostrar. Até que um dia mostra, para a vida passar do ordinário para o extraordinário. Foi o que eu fiz!

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Local: Rio de Janeiro, R.J., Brazil

Alguém que fala demais, escreve demais e chora demais.

domingo, outubro 23, 2005

Mel e favo

Quando muda muito e o tempo passa, passa, elas agora não se falam mais, não se olham e nem gostam, elas eram quatro e agora não se sabe onde estão. Sabe-se sim, mas não aquelas de outros anos, aquelas não existem mais, não percebem que crescer podia ser com menos dor, menos choro, podia ser mais fácil, com mais amor e menos grito. Agora há os sussurros, choramingos, goteiras de lágrimas e sem benção dos pais que já se foram, não foram pra morte, mas estão fora e não ouvem. Também não são mais os mesmos: a voz engrossou, mudou de tom e não se fala mais de subir em árvores, de andar à cavalo, de tirar mel e comer o favo. Se fala em pegar ônibus, em ficar quieto, em não explodir, em chegar de madrugada, em provocar, em ver TV, em não falar em dores pelo corpo, em ir e não voltar.
Quando muda muito e o tempo passa, passa e passa, não se pode fazer mais nada. Elas cresceram e eles mudaram.

sábado, outubro 01, 2005

O AMOR TEM QUE CARA?

Se é verdade que procuramos alguém que seja a nossa cara, eu encontrei... Conheci a pessoa mais intrigante e interessante da minha vida. Ele é intenso e contemplativo. Nós dois temos uma pinta na bochecha, nascemos no mesmo dia, portanto arianos, temos o cabelo e a cabeça enrolados, acham que somos mineiros, ele é, eu não, mas é como se fosse. Ele é moreno e eu branca. Minha mão é macia, meu pé pequeno. Eu sou linda e ele odeia minhas unhas pretas. Ele é lindo e tem um caixinho que eu adoro enrolar. Ele fuma, se acha crescido, mas é um menino. Digo para ele não ser tão racional, e ele pensa. Ri de mim, mas sabe que somos inteligentes e românticos. Ele mora nas Laranjeiras e eu na Glória, é perto. Ele é artista plástico e eu atriz, apesar dele dizer que não parece, pois nunca faço drama. Diz que sou mais madura, mas é mentira, ele me acha menina e ingênua, eu sei pela maneira como me olha e sorri. Ele acha que o passado não existe, não vive o presente e tem medo do futuro. Fico nervosa perto dele porque ele percebe a mudança no brilho dos meus olhos.
Se o amor existe, esse seria um caso de amor, mas ele desistiu de viver esse caso, apesar de sermos a cara um do outro. Todos falavam isso. Quando perguntam por ele não sei o que dizer, talvez devesse dizer simplesmente que quando abri os olhos ele não estava mais lá.